sábado, 24 de janeiro de 2009

Da Tempestade que Vem e Fica

-


E tão sereno e moribundo, olho pela janelinha do banheiro... dela vejo grades e telhados, nada colorido além dos frascos de sabonete líquido que ficam perto do vidro. A chuva vai caindo fina, fria e silênciosa. Aquele silêncio parece cortar meus tímpanos que ao mesmo tempo me iludem com um som fresco e pálido.

E devagar vou vendo, analisando e pensando... cansado de peregrinar pela casa fico ali, inerte.

Eis que passa em minha mente aquele repetitivo flash, papai chegando do trabalho, mamãe fazendo o jantar... e eu calado. Como hoje.

Sorrio sozinho mas sinto vontade de deitar. E a chuva não para. E o flash termina. A vontade de sair por aquela janela é grande, mas as grades me impedem. O que teria lá fora que tanto me acalma, me engana, me conforta...?

Aperto os botões de minha camisa, apago a luz que me incomoda e caminho novamente ao meu sonoro dia-a-dia. Mas aquele momento de silêncio e sem cor parece ter me despertado.

E a chuva vai caindo... inundando a rua... inundando minha mente... inundando minha vida.



Current Music: Garden - Pearl Jam

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Contos Perdidos das Páginas Mágicas (Texto 4 de 8)

-

A Casa dos Sorrisos Velhos


Olha que lindo o sorriso daquela criança
Sentada na varanda daquela velha casa
Me parece tão novinha, inocente... sozinha
O que se passa naquela cabeça?
Será que entende tudo a sua volta?
Acho que nem notou que olho tão fixamente para ela
Ela ou ele?
De longe me parece ela, tão quietinha e bonita
Dizem que nesta casa morou um velhinho
Que estava sempre sorrindo, sempre feliz
Será que a casa faz isso com as pessoas?
Rá, que isso... tolice a minha
Mas é estranho como estou aqui, olhando...
Mesmo cansado desse dia chato, com meu terno sujo
Minhas meias ensopadas e minha vista embaçada
Mesmo assim consigo sorrir ao ver aquela criança
Como se tudo sumisse...
Em pensar que quem morou aqui fui eu
Até minha idade chegar eu sentava naquela varanda
Mas um dia deixamos de viver sozinhos
E passamos a depender dos outros
Hoje, tudo o que tenho são meus netos
A vida me tirou até minha antiga casa
Infelizmente este é o ciclo da vida
Mas aquela menininha lá sentada ainda vai entender
Que um dia sentirá falta desta casa
Um dia, sentira falta de seu lar


Current Music: Help! (The Beatles)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Contos Perdidos das Páginas Mágicas (Texto 3 de 8)

-

Verde


Vem vindo o vento verde
Voando solto por entre as nuvens
Ludibriado com o amarelo
Que tingia as cortinas de manhã
O vento forte que rugia
Manso manso para não acordar o silêncio
Verde claro, verde escuro
Vinha vindo o vento verde
Tocando música, contando contos...
Com flautas, harpas e cornetas
Na margem de minha mente me enganava
Ouço seu som e tudo se faz
Mais bonito, mais colorido...
Vai o vento verde pelo amarelo a fora
Fica o sorriso que me trouxe
E a felicidade de outrora


Current Music: Sweet Little Kitten (Husky Rescue)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Da Insanidade Temporária

-

Dia 6 de janeiro de 2009, tarde chuvosa e fria. 

 

Quando acordamos de manhã e vemos a janela embaçada, o céu iluminado e o poster da parede sorrindo para nós começamos a perceber que algo está errado. Não que isso tudo tenha alguma ligação direta com nosso estado mental, mas aparentemente aquilo tudo começa a fazer sentido naquele instante. 

Beirando a sonolencia com um misto de loucura, vemos que as coisas a nossa volta de nada servem e mergulhamos em uma piscina de duvidas e incertezas que nos faz pensar que estamos temporariamente loucos. 

O ser humano não é capaz de lidar com a solidão sem perder a lucidez. Isso é fato. E é neste exato momento que os devaneios começam a se tornar reais e o frio que entra pela fresta da janela começa a fazer você pensar que nada é tudo e tudo é nada. 

Então você sai de casa, entra em uma pequena capela, senta em um velho e empoeirado piano de cauda recém afinado e o som sai estridentemente infernal. A espuma de barba que usa todas as sextas-feiras para se barbear está com cheiro de chocolate meio amargo e sua mãe parece não falar coisa com coisa. 

Vagarosamente vou então andando, sorrindo e debochando do real. Me acostumando com a realidade distorcida de minha mente e tentando ver tudo pelo lado inverso.    

 

E o frio da janela continua a entrar... talvez os sintomas sejam fruto de um contato com o real e tudo aquilo que julguei ser meu, era simplesmente utópico.

 

Current Music: All Apologies (Nirvana)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Contos Perdidos das Páginas Mágicas (Texto 2 de 8)

-

Bom dia

Bom dia senhorita
Que bela flores tem aí
São margaridas? Que lindas

Bom dia senhor
Que bela gravata tem aí
É cinza? Que linda

Bom dia meu amor
Que belos olhos tem pra mim
São sinceros? Que lindos

Bom dia reflexo
Que belo sorriso tem pra mim

É de plástico? Que lindo

Current Music: Love Reign O'er Me (The Who)

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Contos Perdidos das Páginas Mágicas (Texto 1 de 8)

-

Bem Estar

As vezes gosto de me sentir perdido
Gosto da dor do silêncio em meu ouvido
Gosto do ar que respiro angustiado
Sinto que sei sentir como se nada fosse
Como se o sol deitasse em minha costas
Porque gosto de te ver de longe
Deitada com os olhos meio latejantes
E sorrio mesmo calado e singelo
Para calar meus batimentos inusitados
As vezes gosto de me sentir solitário
Para lembrar que me perdi uma vez
E para poder parar e rezar novamente
Para te ter em meus braços sem cor
E fazer meu sorriso colorido como antes
Porque eu gosto de me sentir calado
Calado pelo seu sádico jeito ciumento
De me despertar com o mais macio olhar
E me fazer feliz, por nada mais que isso

Current Music: Even Flow (Pearl Jam)

sábado, 27 de dezembro de 2008

Aquarela de Verão

-

Ano vai e ano vem e tudo o que passa por nossa cabeça é o simples e obsessivo desejo de alcançar um espaço neste mundo para nossas realizações. O fim do ano é assim, sempre traz o vago sentimento de renovação e uma pequena dose de alívio por tudo de ruim que aconteceu estar ficando para trás.

O homem, estúpido como sempre, esquece sempre de olhar para trás. Enquanto a chuva cai em suas costas, ele se preocupa com as poças que pode vir a pisar.

E o colorido vai desbotando, e o jardim murchando... as flores secando.

Um dia tudo toma seu rumo. Desta vez termina apenas mais um ano. Mas coisas que cultivou procuram o mesmo destino. Partir. E a comemoração com trajes brancos, bebidas caras e pessoas que gosta passa a ser mais uma parte da chuva que caiu e você apenas se molhou. Tudo começa apenas a se tornar parte de um ritual tradicional e perde um pouco o sentido. Como tudo na vida, sem sentido.

E o colorido desbota, embaça, se apaga... some.

-

Current Music: The Boxer (Simon & Garfunkel)