segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Divagações

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Acordei nesta manhã como todo bom homem. Ainda no banheiro, enquanto lavava minhas mãos, me olhei no espelho... e lá estava eu: cansado. Cansado de uma vida que começou de verdade no fim da melhor das nossas etapas. Mas sem me abalar saí do banheiro. Caminhei um pouco pela casa procurando meu gato, até que lembrei não ter nenhum. Procurei meus pais e lembrei-me que não estariam aqui a essa hora. Estava só, como na maioria das vezes.
Sentei-me no sofá da sala, coisa que não costumo fazer já que não recebo muitas visitas, e fiquei olhando o porta-retrato antigo que enfeitava a estante. Sorri um pouco, realmente pouco, ao lembrar-me de momentos que aquele porta-retrato me remeteu. Curioso como uma foto pode trazer tantos sentimentos misturados de uma só vez.
Quando percebemos que o tempo está passando depressa e que muitas coisas estão ficando para trás, acho inevitável que tudo venha a tona e acabemos por pensar em tudo em uma explosão de lembranças. Ok, eu sou um saudosista de primeira... mas até que isso faz sentido.
Tive muitos arrependimentos até aqui. Muitos que em sua maioria são irrelevantes, outros que penso que se tivesse sido mais esperto hoje eu não seria o que sou. Dessas lembranças, muitas faço piada hoje em dia... algumas quando lembro, acho que penso demais para encaixar as peças.
Amei algumas vezes, intensamente, com força... algumas vezes sem ser correspondido. Outras vezes amei em silêncio. Fiz sempre tudo de um jeito peculiar demais para que fossem grandes histórias. Para mim tudo soa como um filme de alta bilheteria, mas não passam de fortes devaneios... ou não.
Não trabalhei muito e muito menos corri atrás do que queria. Dependi de pessoas, e isso entra nos arrependimentos. Mas fiz amigos, que talvez nem se lembrem do meu nome. Fiz inimigos, esses sim não devem se lembrar. Criei fábulas, juntei pedras, tive meus ídolos e quem sabe meus fãs. Tudo isso, sem perceber minha barba crescendo, meus medos se juntando... meu ímpeto indo embora.
Em um epicentro de emoções e usando expressões de jogos da minha adolescência termino este lamento, se é que posso chama-lo assim, fazendo minhas as palavras do poeta: Tristeza não tem fim, felicidade sim.

Em poucos dias deixo o pós 19 e sigo para os 9 degraus dos 30. Crise? Pode ser.
Se me encontrar por aí, me deseje sorte. Eu devo precisar.


Current Music: Death Valley 69 - Sonic Youth

sábado, 29 de agosto de 2009

O Outro Lado

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lá do outro lado
daquela grama toda
daquela lama toda
distante daqui
distante de mim
lá do outro lado
além dos pensamentos
acima das nuvens
acima das duvidas
além do tempo
lá do outro lado
que procuro
que navego
que me cego
que me acho
lá do outro lado
onde está você
onde estão eles
onde está o vento
onde não passa o tempo
onde tudo é perto
além do mundo
além de mim
lá do outro lado


Current Music: Strangelove - Depeche Mode

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Que Seja

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Acordar é para os fortes e preparados
Quando acordei pela primeira vez me senti fraco
Tomei um baque, fui surpreendido e fiquei calado
Não sei se foi real ou abstrato
Só sei que foi intenso, como uma briga de rua
Senti cada segundo cortar meu peito
E cada vez que pensava sentia de novo
Uma dor na pele, uma coceira nos olhos
O zumbido continuava
Me enganava, me iludia, me perturbava
Surpreso de novo me vi como um tolo
Acreditando no acaso, me entregando ao silêncio
Silêncio de mentira, de plástico
Sem sono eu acordava
Sem medo eu me atirava
Me atirava para fora daquilo tudo
E algo me acompanhava
Me seguia, me alucinava
Então acordei de novo
Dentro da mentira estive vivo
Mas amei de verdade outra vez
Então, voltei a dormir.


Current Music: Worms Eater - The Bubble

domingo, 9 de agosto de 2009

De Algum Lugar no Presente

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Desperte-me, minha menina
Deslize-se sobre meus poros
Entorpeça meus ouvidos com palavras
Porque queres assim e eu também
Desperte-me hoje como ontem
É disso que eu preciso, é disso que vivo
De certo por você morro de amores
Morro de medo, morro de saudade, morro de mundo



Current Music: We Can Work Out - The Beatles

domingo, 2 de agosto de 2009

Uma curta viagem em barcos de papel



Me lembro que levantei rápido da cama, estava um pouco suado e ofegante como se tivesse feito uma pequena corrida da portaria do meu prédio até a venda de frutas na esquina. Não me lembrava de nada que poderia ter me levado a ficar daquele jeito. Um pesadelo talvez? Quem sabe. Pensei o dia todo, sai para comprar o pó de café, que havia acabado devido a minha pilha de trabalhos para fazer, e então me sentei embaixo da cerejeira, que escurece meu quarto a tarde. Enquanto lia o jornal, que parece estar sempre com as mesmas notícias, fui vagamente me lembrando.

Ontem, eu flutuei. Sim, sai voando. Não, não sou o Superman e muito menos o Ironman. Mas pela primeira vez sai do meu corpo. Deixei de lado minha vida igual, minha rotina igual e meus pensamentos iguais. Resolvi fazer com que tudo fosse diferente naquelas ultimas 24 horas. Estava cansado daquilo tudo, muito cansado.

Entrei no meu banco e conversei com meu gerente. Resolvi tirar todo dinheiro de minha polpansa, aquela que está sem ser mexida desde que nasci. Cerca de 25 mil reais. Peguei todo o dinheiro e a primeira coisa que fiz foi comprar um maço de cigarros. Não, eu não fumo. Mas eu queria que tudo fosse diferente, então traguei me engasguei, cospi e guardei aquela porcaria na polchete (sim, até isso eu quis mudar) e continuei andando. Em seguida comprei uma calça de couro, um oculos escuro no vendedor ambulante que estava na calçada e uma passagem para viajar. Para onde? Não me lembro... só lembro que nevava. Bastante.

Acordei em outro país. Frio. No trem eu sentia apenas a brisa. Trem! Eu amo trem, quando eu era jovem meu avô contava sobre histórias de trem para mim... mas isso não faz diferença. Dancei muito em uma festa qualquer, da qual não fui convidado mas dei um jeito de entrar. Tirei umas fotografias idiotas em uma máquina porcaria, mas que aqui no Brasil seria um máximo se tivesse nas ruas. Toquei guitarra em um barzinho com uma banda de adolescentes bebados, cantei em uma máquina daquelas que aqui na minha cidade eu costumava odiar. Beijei na boca de um travesti, fiz sexo com uma adolescente que talvez fosse uma protituta e depois entrei em uma capela para assistir a missa.

Enfim, voltei para casa. Foi tão rápida a volta que parece até que eu estava ancioso para voltar para casa. Fui recebido pelo meu gato gordo roçando em minhas pernas, o cheiro de mofo no carpete era forte porque havia esquecido as persianas abertas. Conversei um pouco com o porta retrato e liguei a televisão. Descobri que sai do meu corpo, descobri que estava louco mas que pouco isso me importava. Sei lá se isso tudo é uma mentira e se estou realmente esquizofrenico, mas prefiro ficar quieto no meu canto, voltar a minha rotina e continuar acreditando.


Current Music: Insesatez - Fernanda Takai

terça-feira, 21 de julho de 2009

Do despertar

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E lá fazia tanto frio...
agora, faz frio dentro de mim.


Current Music: All I Need - Radiohead

domingo, 14 de junho de 2009

O Jovem Senhor e o Velho Moço

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Certa vez eu caminhava pelas calçadas da vida e parei em uma sombra para repousar - sombra de uma amendoeira que escurecia de leve um ponto de ônibus próximo dali. Nele, estavam dois homens conversando. Um senhor de mais ou menos uns 60 anos, vestindo uma roupa social com tons azuis e um belo sapato muito bem engraxado. O outro um jovem rapaz, com um i-pod na mão, uma mochila preta da adidas e uma camiseta escrita "Hey Ho! Let's Go!".
Eles conversavam sobre algo curioso: Amor a distância.
Resolvi pretar atenção. O jovem, muito vigoroso, cheio de si e confiante no que dizia, contava seu caso sem conter palavras. Fazendo uso de gírias como "tipo" e "véio" ele contava sobre sua paixão. Seu caso era curioso, porém comum nos dias de hoje. Ele havia conhecido uma garota na internet. Se apaixonou por ela antes mesmo de vê-la e aquilo tomou conta do seu ser. O amor foi tanto que o fez juntar suas malas e ir ao seu encontro. E foi perfeito. Apenas aumentou seu desejo de estar com sua amada, que mesmo de longe também o amava. Porém, o tempo o fez desacreditar e provar a ele que jamais daria certo. Que tudo não passava de uma paixão temporária e que não valia a pena investir nesse tipo de relacionamento. Gesticulava com força e contava que seria impossível para uma pessoa normal manter tal romance, nenhum amor seria mais forte que a distância.
O senhor, que parecia ter uma personalidade muito calma e compreensiva apenas escutava o que o jovem dizia. As vezes fazia sinais de positivo com a cabeça e as vezes mostrava uma insatisfação com relação ao que o rapaz narrava.
Após o garoto terminar sua história com um "Enfim, é impossível..." o senhor resolveu falar. Com uma voz rouca e uma expressão no olhar de quem passava firmeza, contou sobre seu passado. Dizia ele que, quando tinha a idade do jovem se apaixonou. O amor foi absurdo e completamente inabalável. Tinha planos de se casar com sua amada e viver uma vida feliz ao lado dela. Porém fora chamado para a guerra. Serviu seu país durante 10 anos. Foram 10 anos longe de sua dela. Dizia também que o que o fazia levantar todos os dias eram as cartas, as lembranças e a certeza de que longe daquele local estava ela, o esperando. Contou que em nenhum segundo daqueles 10 anos deixou de ama-la ou de acreditar que tudo daria certo.

Então o jovem, pasmo com toda aquela história, virou e disse:
"-E você conseguiu ficar com sua amada, após a guerra?"

O senhor respondeu que não. Pois quando voltou ela estava doente, muito doente. Teve tempo de se despedir, dizer o que quanto a amava e antes mesmo de lhe entregar suas rosas ela se foi. Para sempre.
Segundos depois, surgiu da curva um ônibus amarelo. Era o ônibus que o senhor esperava. Ele levantou do banco e fez o sinal com a mão. Com um leve sorriso disse "tchau" e o menino curioso o chamou rapidamente

"- ... mas como o senhor conseguiu viver até hoje sem ela?"
"- Da mesma forma que ela viveu aqueles 10 anos sem mim..."
"- Como?!"
"- A amando."

Não sei o que aconteceu após isso tudo, mais uma coisa é certa: Com certeza aquele rapaz pegou outro ônibus e foi atrás de sua paixão, que um dia acreditou que não daria certo.


Current Music: What A Wonderfull World - Louis Armstrong